zoológico

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bicho sobre jaula – três por cinco – a afeição é o chicote do costume e dentição não garante pipoca. três. quatro. risco – um ano a menos a mais – pipa pouca em pé-de-vento é uma pena mas

grampeadores de barriga para cima aquecem o sangue sob o sol fluorescente, enquanto as máquinas copiadoras uivam imprimindo a lua cheia. por acaso uma brisa giraria as cadeiras – e das baias insuspeitas brotariam predadores balançando contracheques. na camada geológica mais profunda um gliptodonte aguarda a vez

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o trabalho dignifica o homem

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1.

o trabalho dignifica o homem
o trabalho fica
no homem
o trabalho dignidi
o homem dignidum
dig dig dig o trabalho
o trambolho
o homem se indigna

o trabalho dignifica as acerolas
e as laranjas, chega e transforma em suco
tudo por dentro que é vivo
o trabalho liquidifica o homem
o que até que é bom para o mercado de jarras

o trabalho solidifica o homem
uma vez vi um homem tão sólido
que parecia uma estátua de cera

tudo o que meus pais consquistaram
veio do trabalho: taquicardias à meia-noite,
suspiros, um lote na vila pedroso,
o futuro dos filhos
o dia preferido de meu pai é amanhã

2.

sete dias a semana no lombo
do preto da preta o trabalho a gastrite o capeta
dignifica o homem

o trabalho a criança de rasgo de cana
de roça a fumaça e o salário pelo nariz
dignifica o homem

do cheiro lavanda da mesa fornada
o trabalho a mulher a cueca lavada
dignifica o homem

o homem fica digno demais
e acaba saindo no the wall street journal

temer fake

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(releitura de Rilke Shake, de Angélica Freitas)

salta um temer fake
com amor & sangue nos olhos
tuitando à noite, insone
sonhando em ir para abrolhos
mas temer pesquisa o fake
e ri-se do remake
calças curtas para cima
quando está triste
& cansado de tanto
criar as trevas
temer lê um temer fake
e as rimas de um remake
todo cercado de velas

não lhe abala um mero fake
no seu conforto de sheik
nem lhe atinge o badalo
dos likes depois das 3
por mais que eu o invente
me deleite e beba pinga
tem noites que a lua é cheia
o pentagrama é invertido
e aí pro pigarro contido
não há pastilha que preste
temer abre um temer fake
gargalha de um remake
e dança com o encardido

cotidiano (4)

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cozinhar, lavar a louça
botar o lixo pra fora
morar exige insistência

exige cultivar trincheira todo dia
contra a possibilidade de baratas
deixei de morar com você quando desisti da peleja

quando esqueci o saco de lixo azul
no lado de dentro da garagem
e nasceram larvas gosmentas

tive pesadelos:
os bichos subiam na cama, gelados
se esfregavam por nossos pés mornos, será

que despontariam, por geração espontânea
no lado de dentro das vísceras
ou dos miolos, como goiabas condenadas?

queria ter sido sincero
ter entendido vida nas moscas
que nasciam, ter conversado metamorfoses

mas contra o pavor impregnado só resta correr
só resta sumir, somos manchas de extrato de tomate
sob a marcha crua do sabão em pó

coleção

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estamparam a foto da feira num cartão
a foto das frutas da feira
de terezópolis de goiás

com cuidado
o fotógrafo enquadrou
os potes de pimenta
e a cara queimada das gentes
por trás das pencas madurinhas
como coroas

fico imaginando meu neto, um dia
saindo de dentro de uma dúzia de matrioskas
coloridas flutuantes
sacodindo seus tênis ultra-nikes

pra olhar os cartões do avô
na pasta-fichário desbotada
como fiapo aborígene dos tempos das tribos
nômades de antes da invenção do fogo e
do touchscreen

no meio de todas as fotos de flores e bichos
apontaria o cartão da feira de terezópolis:
– que bonito, vô!
é propaganda de quê?